14 de janeiro de 2016

Acerca da Insegurança Linguística Brasileira

Não estou à procura de culpados para isso. Não creio que haja. Essa falta de segurança na língua é um fenômeno aparentemente inexplicável que foi tomando lugar em nossas terras ao longo da história.

A coisa começou talvez lá trás. A nossa herança da língua portuguesa parece diferente das demais línguas dos colonizadores. Ora, por que os hispânicos das Américas se entendem facilmente com os espanhóis, mas nós brasileiros temos dificuldade de compreender um português (de Portugal) falando? Por que canadenses, americanos, ingleses e australianos se comunicam sem maiores problemas? Por que temos mais facilidade de compreender a fala de um angolano que de um português?

Mistério.

Um dos resultados disso é que o legado gramático-normativo de Portugal nos soa, com o perdão da hipérbole, como se fosse de outra língua que não a nossa.

Certa vez vi um estudioso de linguística dizer que foram os portugueses que tiveram uma mudança expressiva na língua deles a partir do século XVIII, mudança maior que a que nós brasileiros produzimos durante nossa história. Não sei isso é procedente, e não sei por que cargas d'água isso teria acontecido. Infelizmente não encontrei na internet esse artigo para postar aqui.

Eis o problema: hoje os brasileiros dispõe de três ou quatros maneiras diferentes de falar a mesma coisa. E num contexto um pouco mais formal ficamos inseguros na escolha do caminho linguístico adequado. Além disso, o fato de a gramática-normativa usada no Brasil ser muito distante da realidade costuma causar a sensação de que nunca estamos manejando bem a língua, o que empurra muitos para a prática da hipercorreção[1].

Alguém, contudo, poderia objetar que isso ocorre também nas outras línguas pan-americanas, e eu concordo. Ocorre que — segundo minhas observações empíricas — os falantes do espanhol e inglês (e possivelmente francês) não tem essa dificuldade de maneira tão acentuada quanto nós.

Pois aqui temos: o modo de falar pronormativo (ensinado pela gramática normativa), o modo culto (empregado pelos indivíduos com boa instrução escolar), o modo informal (das conversas informais de todo brasileiro, seja letrado ou não) e o modo desprestigiado (usado por aqueles com baixa escolaridade). Eventualmente há mais outras formas, mas essas talvez sejam as principais.

Volto a frisar, estou ciente de que algo semelhante a esse também se dá nos demais idiomas falados nas Américas. Minha tese é que esse fenômeno é mais intenso no Brasil e que temos um embaraço um tanto maior para optar pela maneira adequada de falar, o que nos deixa com uma certa insegurança.

Vou apresentar alguns exemplos práticos e simples.

Tomemos a seguinte frase dita na forma pronormativa: "você é minha princesa, eu a amo". Numa linguagem culta (mas paranormativa) diríamos, "eu amo você". Corriqueiramente seria, "você é minha princesa, eu te amo" (igualmente paranormativo). Assim também podemos usar, "eu lhe digo", "eu digo a você", "eu digo pra você" e "eu te digo".

Aliás, a adoção que nós tupiniquins fizemos do "você" ao lado do "tu" criou um mundo de combinações entre a terceira e a segunda pessoa. Por exemplo, se alguém me diz, "João pegou seu carro e saiu", eu fico na dúvida, o carro é meu ou do próprio João? Para evitar essa ambiguidade os brasileiros optam pelo uso de "dele" para indicar a terceira pessoa. Assim, usualmente se diria, "João pegou o carro dele e saiu", deixando claro que o carro é do João. No palavrório formal há uma tendência ao emprego de "seu" para a terceira pessoa, mas em qualquer conversa normal só usaríamos o "dele".

O termo "dele", contudo, não consegue ser um substituto perfeito para "seu" em todos os casos. O texto bíblico de Eclesiastes, por exemplo, que diz "tudo tem seu tempo" soaria estranho se fosse dito "tudo tem o tempo dele" — dele quem? É certo que podemos escrever "tudo tem o próprio tempo", todavia,  o "próprio" exerce uma função enfática, por isso também não é um substituto perfeito para o "seu" na terceira pessoa.

Assim, quando se trata de pronome possessivo na terceira pessoa temos que usar tanto o "dele" quanto o "seu".

Para complicar, o termo "seu" na maioria das vezes é usado para se referir à segunda pessoa, como sinônimo de "teu". Por exemplo, "você pode ir ao banco porque já depositei o seu/teu dinheiro". E no caso plural, "vocês", utilizamos tanto "seus" quanto "de vocês": "os carros de vocês estão aqui", "os seus carros estão aqui".

Por conta disso, transitamos com certa hesitação entre "seu", "teu", "dele" e "próprio". E no plural, "seu", "seus", "deles" e ainda "de vocês".

Além desses, vale citar o caso do surgimento e consagração da forma "a gente" ao lado de "nós", sendo este último preferido em falas mais solenes. De semelhante maneira, a locução "a gente" não consegue ainda ser um substituto perfeito para "nós". Como na oração "nós três trabalhamos aqui", que não pode ser dita "a gente três trabalha aqui". Os pronomes possessivos também se cruzam, oscilam entre "nosso" e "da gente". "O nosso carro quebrou" ou "o carro da gente quebrou".

(Vale constar, o tal de "vós" é um arcaísmo há muito sepultado. Só existe nos livros escolares. Deveria ser abolido.)

Há também duas formas usuais da conjugação do imperativo. Podemos falar "ande pela calçada" ou "anda pela calçada". A primeira maneira é favorecida em contextos formais, mas ainda assim é comum se vaguear errante entre um e outro.

E quanto aos pronomes oblíquos? "Eu a vi", "eu vi ela", "ele já nos falou isso", "ele já falou isso pra nós", "ele já falou isso pra gente", dentre outros.

Sem contar as intermináveis discussões sobre colocação pronominal. Suspeito que nem os gramáticos entrem num acordo sobre isso. Veja-se, "diga-me a verdade", "me diga a verdade", "parece-me que sim", "me parece que sim", "trata-se disso", "se trata disso", etc.

Talvez o português brasileiro ainda esteja se consolidando. Com o tempo a língua vai encontrar maneiras de unificar os mecanismos linguísticos. Não podemos, todavia, ignorar o fato de que o discurso dos gramáticos também influencia a língua, e eles ajudariam se abandonassem formas antigas em favor daquelas amplamente aceitas na língua falada. De qualquer modo, como eu disse no começo, não os culpo (ou não culpo eles) por nossa insegurança linguística. Isso apenas aconteceu, sem causas aparentes.

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[1] Fenômeno que se produz quando o falante estranha, e interpreta como incorreta, uma forma correta da língua e, em consequência, acaba trocando-a por uma outra forma que ele considera culta; nessa busca excessiva de correção (seja na fonética: mantor por mantô, seja na acentuação: rúbrica por rubrica, seja na escolha do vocabulário: genitora por mãe), nota-se em geral o temor do falante de revelar uma classe de origem socialmente discriminada. (Dicionário Houaiss).

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