23 de fevereiro de 2016

Calvinismo ou Arminianismo, Quem Está Certo?


Esse embate inquietou a minha alma por um longo tempo até eu concluir que é preciso aceitar que há base bíblica para as duas proposições. Ambas as doutrinas estão, a meu ver, certas.

Cada corrente, entretanto, ao confrontar um texto bíblico que favorece a doutrina oposta, usa de artifícios interpretativos para afastar o sentido natural. Vou dar dois pequenos exemplos, começando por um texto que favorece o lado arminiano:

Jerusalém, Jerusalém, você, que mata os profetas e apedreja os que lhe são enviados! Quantas vezes eu quis reunir os seus filhos, como a galinha reúne os seus pintinhos debaixo das suas asas, mas vocês não quiseram. (Mt 23.37, NVI).

Note que o sentido natural do texto pende para o arbítrio humano, já que Jesus usa o termo "querer". Por isso, para afastar esse "arminianismo", a corrente calvinista vai explicar, dentre outras coisas, que ninguém pode "querer" a Cristo, porque a raça humana está totalmente corrompida pelo pecado, de modo que a fé só poderia ser manifestada se aqueles judeus de Jerusalém tivessem sido eleitos previamente. Assim, eles não quiseram porque não estavam predestinados a isso.

Eis o problema, na prática estão afirmando que o texto não diz o que diz. O sentido natural de "querer" é contornado para dar lugar ao sentido de que o "querer" não é "querer" realmente. Ora, Jesus, ao falar daquela maneira, está insinuando justamente que existia contingência nesse querer.

Agora vamos a um texto que favorece o calvinismo:

Os gentios, ouvindo isto, regozijavam-se e glorificavam a palavra do Senhor, e creram todos os que haviam sido destinados para a vida eterna. (At 13.48, ARA).

Qual o sentido natural da passagem? Que aqueles que vieram a crer o fizeram porque estavam destinados a isso. Simples assim. O texto insinua que exista um fatalismo no que concerne a soteriologia. Mas os arminianos clássicos diriam que Deus já os havia predestinado a tanto em razão da pré-ciência dele. Isto é, Deus já sabendo de antemão que eles não iriam rejeitar a graça, já os havia destinado a crer.

Está aí o mesmo problema. Quando alguém diz que essa destinação decorre do pré-conhecimento divino, estão declarando que o texto não está dizendo o que está dizendo. É um artifício para negar o que figura ser um determinismo de eventos.

Portanto, de um lado, a Escritura dá a entender que a salvação advém de uma escolha da parte de Deus que executa a predestinação individual sem levar em conta nada no homem, nisso incluso a fé ou qualquer resposta humana à graça. Ou, nas palavras calvinísticas, a eleição é incondicional. Até mesmo porque, argumentam, que a possibilidade de livre-arbítrio daria à pessoa participação na salvação e que isso daria a ela algo de que se gloriar.

De outro lado, contudo, a Bíblia também dá a entender que a salvação é concedida para aqueles que respondem com fé à operação graciosa do Espírito. Afirmam os arminianos que aquele que é tocado pela graça consegue naquele momento exercer o livre-arbítrio dele e então pode aceitar ou rejeitar a Mensagem da Cruz. A eleição, argumentam, seria condicional, ou seja, estaria condicionada à fé.

Os dois lados têm perfeito fundamento bíblico -- na minha humilde visão.

Não seria, entretanto, um paradoxo ter a ambos como proposições igualmente verdadeiras? É um aparente paradoxo. Eu diria que é uma revelação ambivalente, um mistério divino que ainda não pode ser inteiramente compreendido, assim como é um mistério a triunidade de Deus. De outro modo, como compreender o enunciado matemático de que duas retas paralelas se encontram no infinito?

Por isso, propugno que a salvação envolve eleição e fé.

Nenhum comentário: