21 de julho de 2016

Notas sobre como muita miséria pode ser evitada

Há algo comum a várias das crises e catástrofes humanas. Elas tem uma mesma causa: manipulação governamental da moeda.

O sistema monetário é na nossa época a base econômica de todo o planeta terra (sem exceções). Ao ruir o alicerce, o resultado não é outro senão colapso sistêmico.

A queda do Império Romano é possivelmente o primeiro grande exemplo na história. No terceiro século, sucessivas manobras inflacionárias dos césares corroeram a moeda, levando ao declínio econômico.

Assim também foi a crise brasileira conhecida como Encilhamento (1889), a Grande Depressão (1929), a Crise do Petróleo (1973), as crises de hiperinflação no Brasil e nos países latino-americanos na década de 80, até a recente Crise do Subprime em 2008. Mesmo a Segunda Guerra Mundial teve por uma de suas causas a Crise de 1929. Esses são só alguns dos casos, a lista é extensa.

A ideia de fabricar dinheiro sem lastro e jogar na praça soa maravilhosa ao ministro das finanças. Parece uma maneira mágica de pagar as dívidas de um governo gastador e ao mesmo tempo — acredita-se — levar o país ao crescimento econômico. O resultado é sempre — sublinhe-se — exatamente o mesmo: desgraça geral.

O Encilhamento engendrado por Ruy Barbosa era uma arranjo que parecia genial, crédito fácil para industrialização garantido por uma emissão monetária livre. Consequência: a bolha de crédito estoura, dá-se crise econômica e empobrecimento do povo.

A Grande Depressão, mesma coisa. Originou-se da expansão monetária e creditícia praticada pelo Fed (Banco Central americano) nos anos anteriores, e se prolongou pelas sucessivas falhas do governo em lidar com a crise nos anos subsequentes[1]. Dessa vez, os efeitos se sentirem em escala global para desespero dos povos.

A Primeira Crise do Petróleo foi fortemente causada pelo chamado Choque Nixon, isto é, a decisão do então presidente americano Richard Nixon de romper com o padrão-ouro em 1971. A partir de então a moeda americana foi se desvalorizando, contribuindo para a OPEP decidir aumentar o preço do barril do petróleo em 1973.

Nos anos que se seguiram, o governo americano se sentiu livre para passar cheques sem fundos ao povo, resultando num surto inflacionário nos EUA. Por conta disso, Em 1979, Paul Vocker, presidente do Fed, subiu os juros para conter a escalada de preços. Como consequência, o crédito internacional se contraiu, e os governos latino-americanos que haviam tomado empréstimos irresponsáveis se viram obrigados a imprimir dinheiro para saldar os débitos internos e externos. Isso resultou na elevação da pobreza e da miséria no Brasil e na Argentina, entre outros.

Após Volcker, o Fed, com certa engenharia financeira, conseguiu morfinizar o mercado e evitar a inflação direta advinda da emissão contínua de dólares. Tal foi possivelmente uma das causas da Crise da Bolha Ponto-com (2000). Para tentar combatê-la, o presidente do Fed, Alan Greenspan, numa medida heterodoxa, foi cortando os juros até patamares reais negativos, encharcando o sistema creditício. Junto a isso, o governo americano vinha implementando uma política tresloucada que incentivava o crédito irresponsável para compra de imóveis. A enxurrada monetária, somada ao crédito imobiliário libertino, fez com que os preços dos imóveis subissem artificialmente às alturas, o que distorceu o mercado imobiliário. Da euforia financeira criou-se o comércio dos chamados ativos podres. E eis que a história se repete[2]: em 2008 estoura a bolha de crédito, estava deflagrada a Crise do Subprime.

Não é sensato ignorar 1700 anos de história.

Vale registrar que dado o tamanho da crise de 2008, o Fed realizou uma expansão monetária de proporções inauditas na história do dólar: a base monetário quadruplicou num curtíssimo período (2008-2015)[3], indo de menos de 1 trilhão de dólares para cerca de 4 trilhões. Foi além de todo ideário econômico. Mas não me arisco a dizer se o Fed agiu bem ou não, voltamos à mesma questão de 1929[1]. As consequências desse capítulo ainda estão por se revelar.

Interessante registrar também o caso da Suíça: há duzentos anos o governo tem mantido a estabilidade monetária.

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[1] Há divergências sobre o que o governo americano deveria fazer acerca da crise de 1929, fazer aumentar a oferta monetária (ainda que artificialmente) ou simplesmente deixá-la contrair-se e depois retornar sozinha. O consenso ortodoxo é de que a crise foi puxada pela própria ação governamental de expansão monetária nos anos anteriores, mas a pergunta que se faz é como deve proceder o governo imediatamente após a detonação da bomba que ele mesmo armou.

[2] É claro que é bem mais fácil identificar o padrão histórico quando se olha em retrospectiva. Na época, quase ninguém enxergou o precipício. Euforias financeiras fazem todo mundo perder a razão.

[3] Há quem anote que o crescimento da base monetária nesse período não representou diretamente uma expansão monetária, porque, numa medida também inédita, o Fed não imprimiu todo o dinheiro, mas apenas criou eletronicamente grande parte dele e ofereceu aos bancos pagamento de juros sobre o montante que fosse mantido no Fed.

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